Do Lajedo à Fajã Grande

“ILHA

Só isto:

O céu fechado, uma ganhoa

pairando. Mar. E um barco na distância:

olhos de fome a adivinhar-lhe, à proa,

Califórnias perdidas de abundância.”

Pedro da Silveira

O plano inicial era percorrer a pé quase toda a costa ocidental da ilha das Flores, dividindo a empreitada em duas etapas de dois dias: o PR2 – FLO do Lajedo à Fajã Grande (13,5 kms) e o PR1 – FLO de Ponta Delgada à Fajã Grande (13 kms). Uma vez que este último trilho estava encerrado e o clima não ajudou a arriscar ainda assim percorrê-lo, ficámo-nos apenas pela primeira caminhada. E que caminhada, uma beleza junto à costa que percorre pomares, pastagens, aldeias abandonadas ou quase abandonadas, vales e fajãs épicos e o lugar mais bonito dos Açores, uma coisa para ocupar um dia nas calmas.

O Lajedo é o lugar de início deste nosso passeio. Situada num vale verde rodeado de rochas basálticas, é uma aldeia e freguesia, uma das menos populosas do nosso país, com 93 residentes apontados pelos últimos Censos de 2011. Diga-se, aliás, que as outras duas freguesias que se seguem no caminho, o Mosteiro e a Fajãzinha, têm ainda menos habitantes, 43 e 76, respectivamente. Ou seja, o território mais ocidental de Portugal, aquele que vira as costas ao continente europeu para mirar a América, é pouquíssimo povoado.

Quando chegamos ao Lajedo vindos das Lajes percebemos uma bela torre de rocha que se ergue no vale: é o Pináculo do Campanário. Esta formação rochosa, que vemos nas costas do Lajedo com a sua igreja e meia dúzia de casas, terá sido formada apenas no final do século XVIII, na sequência de um terramoto e deslizamento de terras. Curiosamente, ao contrário do que acontece nas demais ilhas do arquipélago, os tremores de terra quase não existem nas duas ilhas ocidentais, já instaladas na placa tectónica americana.

Deixado o asfalto da aldeia onde em tempos se produzia pão e pastel entramos no trilho e são as formações rochosas no Atlântico que passam a encantar. Há várias rochas no mar, mas é no Ilhéu do Cartário, a maior delas, que focamos a atenção. Diante de uma pequena enseada com uma plataforma rochosa de laje que dá directamente para o mar, percebemos o porquê do nome Lajedo. Foi perto deste Portinho do Lajedo que em 1909 encalhou a poucos metros da costa o paquete Slavonia, salvando-se todas as 597 pessoas que viajavam dos Estados Unidos da América para Itália. Não são raros os barcos naufragados nesta costa ocidental e as histórias que eles originaram.

O tempo na direcção do mar estava com o céu limpo, enquanto que logo ao lado, mais para o interior, mostrava-se fechado. Idiossincrasias açorianas a que temos de nos vergar. Ainda assim, cada um aproveita da melhor forma, as vaquinhas a descansar num lugar privilegiado e nós a sentir-nos com sorte por podermos desfrutar de paisagens ora azuis ora verdes ora cinzentas.

Por caminhos floridos, passando uma ribeira e outra, e por vales verdejantes que caem abruptos, continuam a ser os afloramentos rochosos no mar e em terra os elementos mais fantásticos.

A paisagem abre-se para a costa escarpada e com uma série de ilhéus junto a ela, os “mosteiros”.

Mas antes de chegarmos à aldeia do Mosteiro propriamente dita, seguimos por um bosque luxuriante, onde somos aconchegadas pelo arvoredo ao mesmo tempo que pisamos uma calçada em pedra ladeada por muros também de pedra, antigos caminhos que ligavam povoações e terrenos agrícolas e de pastagem, sinais de outros tempos onde o lazer era actividade desconhecida.

O nevoeiro não deixou apreciar a Rocha dos Bordões em toda a sua magnificência (como nesta outra fotografia vista de outro ponto da ilha e com um clima mais propício). Esta é a mais famosa e incrível das formações rochosas da ilha e até do arquipélago. Com origem numa escoada lávica, este monumento natural de basalto tem cerca de 200 colunas prismáticas com 22 a 28 metros de altura e 125 metros de comprimento. Se há quem veja nestas enormes colunas rochosas verticais os paus que os caminhantes costumam usar como apoio – os bordões -, outros há que o imaginam como um piano plantado nos céus. Seja qual for a imagem que nos ocorra, o certo é que a Rocha dos Bordões é impressionante.

Voltando ao caminho, uns metros mais e um tanque de água anuncia-nos que havemos de entrar em breve na povoação do Mosteiro. Esta é a freguesia menos populosa de todo o país e, de facto, não vimos absolutamente ninguém enquanto a atravessámos. Há vários palpites para o seu nome. Um deles, já aqui apontámos, é o de vir dos ilhéus que se assemelham a mosteiros no mar aqui perto. Outros há que dizem que se deve ao facto de em tempos ter aqui havido o Cabeço do Sinal que se parecia um mosteiro e foi entretanto destruído para arranjar pedra. Outros ainda simplificam a coisa e não recorrem à imagética, explicando que o nome Mosteiro vem do homónimo da freguesia da ilha de São Miguel, donde veio João Soares Mosteiro para a colonização do Lajedo.

Para além do nome, a piada do Mosteiro está na arquitectura das suas casas. Podia pensar-se que havendo por estes lados uma população tão reduzida tal não seria suficiente para moldar o território e até deixar uma marca cultural. Nada mais errado. As casas típicas do Mosteiro são diferentes das que encontramos ilha das Flores afora, possuindo uma entrada de arco de pedra de volta inteira no seu piso térreo e escada para o primeiro piso num dos lados da fachada. Este arco destinava-se à entrada do carro de bois para a loja, sendo largo o suficiente para tal.

A vista da aldeia do Mosteiro debruçada sobre o Atlântico e sob a sombra protectora da Rocha dos Bordões é uma daquelas que não se esquecerão jamais. A sua implantação geográfica é belíssima e o cenário que deixamos para trás, a nós que estamos apenas de passagem, deixa-nos a impressão de que o isolamento poderá valer a pena. Sem hipocrisias, o isolamento é um postal.

Até à Caldeira do Mosteiro seguimos pela estrada de asfalto. Mas que bonita que ela é, de um lado o azul do oceano, do outro o verde do vale da caldeira. Desviamos para a antiga povoação da Caldeira, implantada num canto de uma larga cratera de um vulcão e hoje totalmente despovoado e abandonado.

O sítio tem uma aura incrível, resultado da mistura das casas em ruína sobre um tapete verde por onde passa um riacho. Nunca passou de mais de uma dezena de habitantes e a electricidade nunca aqui chegou. Abandonado definitivamente em 1992, há esperanças de o transformar numa nova Cuada, povoação não muito distante que hoje é um caso de sucesso de reconversão em turismo rural.

Sensivelmente a meio do percurso, entramos novamente por um bosque e desviamos breve para um lugar do outro mundo. O Miradouro do Portal, ao qual se acede também por estrada, dá-nos uma panorâmica fabulosa da Fajãzinha. É um extenso vale à beira mar que desabou na sua vertente ocidental, onde ficavam as crateras, dando origem a uma parede donde caem inúmeras quedas de água. O verde domina em absoluto e entre casinhas brancas de telhados vermelhos surgem os muros de pedra que dispõem a terra em socalcos. É uma paisagem de cortar o fôlego mas, ao mesmo tempo, de uma tranquilidade tocante.

Daqui descemos até à Fajãzinha pela Ladeira do Portal, uma calçada de pedra que durante séculos foi o único caminho por onde passavam viaturas até à povoação. É relativamente larga, mas nem por isso isenta de perigo: 1 km sempre a descer, o mais duro de todo o percurso pelo muito escorregadio que é. Já cá em baixo, passamos pela igreja, pela simpática praça e dizemos até logo ao restaurante Pôr do Sol, onde jantaremos mais tarde da melhor comida regional. Tradicionalmente terra de cultivo de frutas, inhame e até alguma vinha, é uma surpresa perceber que nos longos invernos havia a necessidade de as gentes se alimentarem não de peixe mas antes de comida pesada mais própria das regiões interiores serranas (e o curioso é que, nos registos escritos mais antigos, os florentinos referem-se ao “sertão” por oposição às zonas costeiras). O Pôr do Sol é, pois, uma degustação cultural onde temos o prazer de provar até algas.

A Fajãzinha é ainda o lugar da foz da Ribeira Grande, o maior curso de água da ilha. Seguimos em direcção ao interior e, depois de passarmos um moinho convertido num espaço museológico, havemos de a atravessar mais adiante sem que se lhe perceba grande caudal.

É por aqui que encontramos, escondido, o lugar mais bonito da ilha das Flores e talvez de todos os Açores. Há que percorrer 800 metros por mais um bosque profundo e frondoso que a dado momento é acompanhado por uma rara levada de água. O piso pode não ser convidativo para todos os pés, mas, garantimos, vale a pena qualquer esforço – pé coxinho, rastejar, ao colo – e todo o tempo para se chegar ao fim do trilho. Se há lugar no mundo que temos de conhecer é este: o Poço da Ribeira do Ferreiro (também conhecido como Poço da Fajãzinha ou Lagoa das Patas).

É um cenário perfeito, tão perfeito que se duvida que seja real. De uma parede desmedida (aquela que limita interiormente a Fajãzinha e acima da qual estão as lagoas Negra e Comprida) caem uma série de cascatas, riscando a rocha coberta de vegetação verdíssima com fios de água branquíssimos. A água não cai directamente na lagoa que está no seu regaço, daí que esta seja um manto diáfano onde todas as cores e reflexos são possíveis no seu espelho cristalino. Tudo é tão delicado que não há como não ficarmos comovidos e juntarmo-nos ao silêncio natural que dali emana. Um silêncio profundo, carregado de serenidade. Uma beleza imaculada.

Não creio que haja quem não se sinta arrebatado pelo Poço da Ribeira do Ferreiro mas, depois, há o momento que a cada um calha em sorte viver. O fim de tarde é o período onde os elementos se conjugam ainda mais para nos oferecer a paisagem em todo o seu esplendor. Mas que dizer da sorte de poder ter o esplendor todo só para nós? Melhor, poder dividi-lo apenas com o garajau residente que gosta de se divertir por ali em voos rasantes à água verde com vista para as cascatas? Em Junho de 2021 essa sorte foi possível. Não se pense, porém, que os nossos antepassados experimentaram o mesmo. Na verdade, até pelo menos 1995 o lugar era desconhecido dos turistas e não foi há muito mais tempo que esta lagoa secava durante grandes períodos. Ou seja, com tantas alterações que a nossa Terra tem sofrido, cabe-nos reconhecer por uma vez que nem tudo é mau, que há esperança de que novas belezas naturais possam nascer.

De volta ao nosso trilho, já não estamos longe do destino. Seguimos perto da parede cavernosa protectora das fajãs, por entre caminhos de pastagem divididos pela característica pedra. Quando percorrermos o PR3, havemos de ver o recorte que estas parcelas criam na paisagem desde as alturas, mas por ora andamos por entre elas, lado a lado com as vacas e as ovelhas. Socalcos na Fajãzinha e parcelas na Fajã Grande são duas marcas inesquecíveis destas duas povoações florentinas.

E chegamos enfim à Fajã Grande, a freguesia mais ocidental da Europa. A sua localização é brutal, esmagada entre as cascatas e o oceano. A nossa feliz caminhada do PR2 termina oficialmente aqui, mas há mais para explorar. Cuada, Fajã Grande e Ponta da Fajã são teoricamente os seus três núcleos populacionais. Explique-se o “teoricamente”: a Cuada não tem residentes e a Ponta tem a habitabilidade interdita. Os motivos ajudam a explicar o porquê de a zona ocidental da ilha ser tão despovoada.

A Cuada fica entre a Fajãzinha e a Fajã Grande e chegou a ter mais de 100 habitantes. Terra de tecedeiras, foi abandonada progressivamente desde a década de 1960 até perder o seu último residente vinte anos depois. Não tinha estrada até lá, não tinha água, não tinha luz, apenas uma série de casas e palheiros já em ruína. Até que na década de 1990 um florentino começou a adquirir uma casa e depois mais outra e as foi recuperando para desenvolver o seu projecto de turismo rural. Um sucesso e exemplo para todo o arquipélago e país, uma aldeia devolvida à vida, com cada edifício restaurado de acordo com a traça tradicional e com extremo bom gosto. Manteve-se a capela do Espírito Santo, das mais antigas da ilha, cada casa de pedra toma o nome do seu antigo morador e tudo está cheio de pormenores e rodeado de flores, para além do lugar ser todo ele envolvido pela densa vegetação – descubra-se a antiga eira. Uma ilha dentro da ilha de remotidão que são as Flores e, em particular, a sua costa ocidental.

A Ponta da Fajã fica, precisamente, na ponta norte da Fajã Grande. A poderosa parede rochosa da Fajã, cheia de memoráveis cascatas, domina a paisagem, mas ainda assim não conseguimos deixar de nos enfeitiçar pela presença da igrejinha branca bem lá ao longe. E vamos até ela. Passamos por um sempre cativante dragoeiro, por umas vacas, mosaicos de santos nas fachadas e um ou outro indivíduo à porta das casas. Alguma vida como ainda não havíamos visto. Acontece que em 1987 uma derrocada na montanha destruiu algumas casas e levou a que o perigo de quebradas fosse considerado real pelas autoridades públicas. Em resultado, a zona foi designada de alto risco geológico e oficialmente passou a ser interdita a habitação da povoação, bem como a reabilitação e a construção dos edifícios, como forma de garantir o seu abandono. Sem sucesso, pelo que se vê numa curta passagem pela Ponta.

Regressamos à Fajã Grande para aqui nos deixarmos ficar. O lugar é brutal. Realce uma vez mais para a imponência das suas cascatas, vindas das ribeiras que não encontram mais caminho quando se veem à beira do precipício no cimo da montanha. A do Poço do Bacalhau, vinda da Ribeira das Casas, é a que mais facilmente identificamos, mas todas elas, em conjunto, é que fazem deste um cenário inesquecível. Caminhamos pela praia de calhau rolado, uma aventura para o equilíbrio e para a estabilidade dos nossos pés, mas insistimos em mantermo-nos o mais a ocidente possível e fisicamente próximas do ilhéu de Monchique. Tempos houve que do Porto da Fajã saiam barcos de pesca, incluindo para a baleia, e recebia outros encalhados, como o Papadiamandis, navio liberiano naufragado em 1965. Hoje já praticamente só é usado por (poucos) barcos de turismo.

Para além da praia, os melhores mergulhos são nas piscinas naturais, um pouco mais a sul. A povoação tem um pequeno núcleo antigo e tem vindo a alargar-se com novas construções, nem sempre muito dignas da beleza e pacatez do lugar. É hoje, sobretudo, uma zona de veraneio. Mas nem sempre foi assim. Gaspar Frutuoso, o historiador do século XVI, relatava no seu tempo que “está uma fajã, chamada Grande, que dá pão e pastel, em terra rasa, com algumas engradas onde entram caravelas de até cinquenta moios de pão a tomar o pastel que nela se faz, onde também há marisco e pescado de toda a sorte, e no cabo dela está um areal, de meia légua de comprido, em que sempre anda o mar muito bravo; e dali por diante, a outra meia légua, é tudo rocha talhada, onde se apanha muita urzela, e de muita penedia por baixo, em que se cria infinidade de marisco e grandes caranguejos”. Isolada da restante ilha até muito tarde, a Fajã Grande tinha 1343 habitantes em 1864 e hoje tem pouco mais de 200, sendo ainda assim a freguesia mais populosa da costa ocidental. Esta conversa faz parecer que estamos no fim do mundo, mas não o é. É talvez o lugar onde nos poderemos salvar do fim do mundo.

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