Londres 2017

Ficou célebre a tirada de Samuel Johnson, “quando um homem está farto de Londres, ele está farto da vida”. Certeiro, Londres tem sempre algo para nos oferecer. Não, não falo da surpresa do Brexit e das possíveis surpresas que se seguirão.


Quem tenha deixado de vir a Londres na, digamos, última década, encontrará um skyline completamente diferente. A pujança da city pode ser medida pela construção sucessiva e desenfreada de arranha-céus. A construção em altura não era até há pouco tempo uma marca de Londres, mas hoje temos, entre outros, o meu amado 30 St Mary Axe, o 20 Fenchurch Street, o The Shard e o Leadenhall Building.

Alguns destes nomes podem dizer pouco, mas se os substituirmos por Gherkin (pepino), Walkie Talkie, Salt Cellar (saleiro) e Cheesegrater (ralador de queijo) talvez os identifiquemos melhor na nova paisagem londrina – os ingleses adoram criar apodos para os seus edifícios.

Novas construções à parte, teremos sempre os edifícios de antes, Buckingham Palace, Abadia de Westminster, Parlamento, Catedral de São Paulo. 

E os museus de antes, National Gallery, British Museum,Vitoria & Albert, Tate Modern. Todos eles sempre com exposições temporárias para nos fazer balançar entre estas e a permanência das suas obras de arte gratuitas – sim, os grandes museus em Londres são de borla. Mas também no item museus temos uma novidade recente em Londres, a tão esperada abertura da extensão da Tate Modern.

E Londres são ainda os seus parques. Sempre um novo para descobrir e nos deixar frustados pela imensa escolha: relembrar os espaços conhecidos ou atirar sem receio ao muito que Londres nos tem para oferecer de novo?

O pretexto para esta visita de quatro dias a Londres no Carnaval 2017 foi a exposição de David Hockney na Tate Gallery e um jantar no Lima Fitzroya do peruano Virgilio Martinez.

À boleia saímos à descoberta das praças – jardim de Bloomsbury, caminhamos por Hackney desde London Fields até Bricklane, perseguimos as livrarias mais bonitas e charmosas, visitamos o jardim mais perto do céu no novo Sky Garden, conferimos o novo elemento arquitectónico da Tate Modern e inventamos novas perspectivas da city em Bermondsey.

A Saatchi Gallery

Visita que se preze a Londres não pode falhar a Saatchi Gallery.
Não só pela a arte contemporânea que lá se apresenta, mas pelo enquadramento de todo o espaço. É um edifício imponente com um largo relvado àsua porta e fica na elegante zona da Sloane Square, ao fim de uma bonita rua onde entre outras lojas há uma da Taschen.
Mas o que me diverte sempre são mesmo as obras que vejo nas salas da Saatchi. A criatividade é tanta e o conceito de arte tão alargado que desta vez até pude mesmo ver uma das salas transformadas em cemitério. Como dizia o Pessa, e esta hein?

Londres Versão Outono 2013

Fim de semana alargado, nada melhor do que me dar como prenda de anos um saltinho a Londres. Há sempre tanto para rever ou ver pela primeira vez em Londres que não me canso de lávoltar.

Os habituais problemas no metro não atrasaram em demasia a jornada de sábado, pelo que o pequeno atraso resultou apenas num almoço de sanduíches à toa. Fui directa para o Dover Street Market, género de galeria comercial com uma mão cheia de andares não muito amplos. A roupa e os adereços de moda que lá se vendem não são nem para o meu gosto nem para a minha bolsa, mas gostei de ver a decoração estilo rua despojada e fiquei admirada por ver numa montra a pasta dentífrica Couto à venda. A marca Portugal pelos vistos manda alguma coisa. Ou pelo menos chega até quem manda.

Segui para o Soho, com a Carnaby Street enfeitada como sempre. Daí uma agradável caminhada atéao norte de Convent Garden para conhecer um cantinho que atéhoje me havia escapado – o Neal’s Yard. É um pátio cheio de cafés e lojas pitorescas envolvido por prédios coloridos. Muito bom contraste com aquele fim de meio de tarde, sol (?) a cair a modestas 16 horas.
 
 

O fim da tarde foi gasto na Foyles, a ver livros e mais livros.

Esta viagem a Londres tinha dois objectivos principais: ver algumas exposições e comer em alguns restaurantes que já levava referenciados. Sábado à noite foi feita a primeira tentativa. Mal sucedida: Koya e Barrafina com filas intermináveis à porta, como sempre. O que vale éque estava sozinha e o Ceviche tinha um lugar ao balcão sópara mim. Provei o sempre delicioso ceviche e umas papas não menos deliciosas, rematando a refeição com um cheesecake de lucuma.

 

O dia de domingo foi iniciado com uma caminhada pelo Holland Park, que não conhecia. A manhã estava fresca, viam-se poucas pessoas, umas a correr, outras a passear o cão, outras sentadas num banquinho no Jardim Japonês, a contemplar o lago e as tonalidades intensas das folhas.

Aqui perto fica o museu da Leighton House, “onde o oriente encontra o ocidente”. É fácil não se dar pela casa, mas assim seremos um pouco menos felizes e afortunados. Frederic Leighton era um pintor vitoriano e na segunda metade do século XIX decidiu encomendar a sua casa-estúdio. Mais do que as pinturas de sua autoria em exposição, bem como outras que ele coleccionou, incluindo objectos vários e tapeçaria, maravilhou-me o edifício e decoração da sua casa, dividido em várias salas, acompanhado por um extenso jardim. O pátio árabe é simplesmente lindíssimo, delicado com a sua fonte central e nos motivos dos seus azulejos e mosaicos.

A tarde foi dedicada ao Southbank do Tamisa, nomeadamente àTate Modern e ao The Shard. Começando pela Tate, levava járeservada a exposição de Paul Klee, o suíço-alemão que criou a Blaue Reiter e fez parte do movimento da Bauhaus. As suas obras foram influenciadas pela viagem que fez à Tunísia e podem ser enquadradas no expressionismo, cubismo e surrealismo. As primeiras pinturas em exposição na Tate eram de reduzidas dimensões. Com a quantidade de gente que estava neste centro comercial, perdão, museu, ficou ainda mais difícil observar as obras. Mas Klee tem também telas de dimensões aceitáveis para se poder ver uma nesga por entre quatro ou cinco cabeças. Agora mais a sério: a exposição estava muito boa e o Klee das várias épocas estava bem representado. As suas pinturas são coloridas, a cor é mesmo essencial na sua obra, e algo ingênuas nos motivos.

O resto da Tate estava igualmente impossível para se circular, dai que sem pena tenha seguido rapidamente para o The Shard, mais especificamente para o seu 68 andar, através de uma supersónica ascensão num foguetão. Bom, não éassim tão futuristico, era apenas um elevador, mas rapidíssimo na mesma. O The Shard é actualmente o segundo edifício mais alto da Europa (o primeiro fica em Moscovo) e foi projectado por Renzo Piano, o mesmo do Pompidou de Paris. Mas um não tem nada a ver com o outro.


Este The Shard é uma torre em forma de seta em direcção ao céu inteiramente de vidro. O seu topo parece inacabado, mas éapenas ilusão de óptica. A vista  lá de cima (o elevador para no andar 68, mas nós subimos mais dois ou três andares) abriu ao público em Fevereiro deste ano e é um sucesso, pese embora os cerca de 30 euros de entrada se o bilhete for comprado com antecedência.


A nossa vista alcança toda a Londres. Se tivermos a sorte de ter um dia limpo e claro deve ser uma experiência inesquecível. A mim tocou-me apenas um dia normal da Londres nublada, mas felizmente sem chuva. Escolhi ir num horário que me permitisse ver o dia ainda com luz, mas aproveitar também o escurecer. Algo que em Lisboa se poderia traduzir por por do sol, mas que em Londres é um bocado estranho. Vi, assim, as luzes dos edifícios da city a acenderem, àmedida que o céu ficava mais e mais escuro. 


Neste dia optei por não almoçar e jantar duas vezes. Àcautela, para não perder outra vez a hipótese de jantar no restaurante por mim desejado, cheguei às 17:35 ao Barrafina, 5 minutos depois de ter aberto, e encontrei um único lugar restante – precisamente o que precisava. À medida que a fila se ia formando e esperava pelas minhas tapas, ia espreitando as dos vizinhos, todas elas com um aspecto delicioso. Eu escolhi uma de morcela com ovos de codorniz e outra de salada de anchovas e bacon. Não me arrependi. E também não me arrependi de não gostar de vinho, poupando assim dinheiro para uma segunda refeição.

Não é que estivesse com fome, mas queria mesmo continuar a experimentar mais restaurantes. Escolhi o recente Chottomatte, na mesma Frith Street. É uma mistura de peruano com japonês, o que me entusiasmou. Mas achei-o um pouco pretensioso e absolutamente exagerado no preço para o tamanho dos pratos. Escolhi novamente (mini) ceviche e tostadas de sashimi de salmão com chili, absolutamente picantes, de tal forma que me vieram as lágrimas aos olhos e tive de me mandar a 2 singelos pedaços de sushi.

Para final da noite, um passeio pela movimentada Chinatown e a certeza de que para a próxima me dedicarei aos seus restaurantes.

Na manhã de segunda-feira vivi os últimos momentos desta jornada londrina. O destino era o British Museum e a exposição de arte Shunga que lá estava patente. No caminho vi um anúncio no metro para uma exposição de Pintura Chinesa no Victoria and Albert Museum e fiquei com pena de não me ter apercebido antes desse evento. Mas a exposição do British, Shunga: Sex and Pleasure in Japanese Art, foi surpreendente e fantástica. A arte erótica para o público em geral aliada àpolítica e à ironia, cómica até. Mais detalhes sobre o assunto em post do Estudante Asiática aqui.

 

A viagem terminou com um almoço no Koya, às 12:30 em ponto, para não perder o lugar. Mas a essa hora o restaurante não encheu, apesar dos seus udon o merecerem a qualquer hora. O Koya serve uns noddles chamados udon, no meu caso acompanhados de uma deliciosa sopa com carne. Valeu a pena esperar mais de um ano para o degustar.

Serpentine


Desde o ano 2000 que os maiores arquitectos têm sido convidados a desenhar um pavilhão junto à Serpentine Gallery, uma estrutura temporária para ocupar os meses do verão.

A Serpentine foi construída em 1934 como uma sala de chá e em 1970 redefiniu-se como galeria para exibição de arte moderna e contemporânea. Fica no Hyde Park e leva o nome do maravilhoso lago que aqui encontramos no meio dos imensos jardins. Por esta altura apresentava uma exposição de Yoko Ono, para sempre mulher de John Lennon.

Nunca tinha tido oportunidade de visitar Londres no verão desde 2000 para cá, logo, nunca tinha dado de caras com um destes pavilhões que já foram desenhados por nomes como Zaha Hadid, Frank Gehry, Jean Nouvel, Oscar Niemeyer ou os nossos Siza Vieira e Souto Moura.


Até este verão olímpico. Neste ano de 2012 as figuras convidadas foram a dupla de arquitectos suíça Herzog & de Meuron e o artista chinês Ai Weiwei, os quais já tinham colaborado na criação do Estádio Olímpico de Pequim. O espaço, sempre certeiramente integrado com a envolvente, consiste num género de anfiteatro coberto, a que não faltam uns banquinhos em forma de rolha feitos, precisamente, de cortiça. E portuguesa. O pavilhão está construído num plano inferior, dai que quando lá entremos nos sintamos  como que encaixados numa concha. Mas aconchegados. O tecto redondo, de uma placa que se torna translúcida com o efeito da água que a ocupa, reflecte as inúmeras arvores que marcam presença no espaço. Aqui, com este tecto / espelho ao nível da nossa cintura, damos connosco a flutuar. Boa introdução aos Pavilhões da Serpentine.

Brick Lane

Brick Lane é o nome de uma rua de Shoreditch, ali para os lados do Old Spitafields Market e da Witechapell Gallery, tudo coisas trendy, mas acaba por significar muito mais do que isso, dando o nome a uma zona mais extensa.

A antiga indústria de tijolos dominou em tempos esta zona do East End londrino, dai o “brick”, mas foi sobretudo a cervejeira que deixou marcas até hoje. A Old Truman Brewery, instalada em finais do século XVII, só na última década do último século é que foi definitivamente desactivada. Hoje, o amplo edifício é um centro que acolhe uma miscelânea de actividades entre os negócios e o lazer, desde mercados, restaurantes e bares, workshops, lojas, galerias. Tudo com muita criatividade. Pertinho fica ainda o Brick Lane Market e a Rough Trade East, uma instituição na música indie.

Apesar de ser um local da movida londrina, centro de arte, moda, com diversas galerias e clubes nocturnos, são as casas de curry que dominam. Esta é a Banglatown, com direito a Mesquita e tudo. Por isso que aos meus olhos tudo se torna tão pitoresco. Esta gentrificação, esta mescla de culturas de gentes vindas de tantos lados do mundo diferentes, sim, mas também e sobretudo, uma diversidade na cultura urbana torna esta zona pujante em termos culturais e sociais.


E, depois, há que não hesitarmos em metermo-nos pelas ruas adentro e descobrir num baldio ou numa fachada de um edifício partido a metade os inúmeros grafitis dos artistas mais famosos do género. Seja o carro bomba de D* Face, seja Bolt por Jimmy C., ou desenhos anónimos a recordar-nos que também vivemos nos anos 80 e até foi bom.


Não faltou sequer mais um Wenlock, desta vez desenhado numa parede e a provar que até os cães não lhe ficaram indiferentes.


Para a próxima já tenho programa: explorar melhor e mais intensamente a zona para descobrir os desenhos de Banksy, que também os há por aqui.