São Jorge, terra das fajãs

A ilha de São Jorge é conhecida como a ilha das fajãs. Há quem já tivesse contado cerca de 80 fajãs espalhadas um pouco por toda a ilha, mas com maior predominância na costa norte.

Esta ilha do grupo central do arquipélago dos Açores tem uma forma como nenhuma outra. Um rochedo alto com montes no interior e vertentes escarpadas. Ao longo dos séculos, a sua costa foi sendo moldada por abatimentos vários que deram origem a aluimentos de terra e lava que formaram pequenas planícies, espécie de plataformas costeiras, que se espraiam no mar e com a falésia abrupta às suas costas. Há-as de diversas formas: rasas, redondas, pontiagudas; com a companhia exclusiva do mar ou coadjuvadas por lagoas; com habitantes em permanência ou abandonadas aos elementos. O acesso a estes pedaços de terra nem sempre é fácil. Ou é feito por mar ou por estradas em “s” que serpenteiam a dita falésia ou, pura e simplesmente, a pé. São verdadeiros recantos, apartados do mundo. Visitamos qualquer uma delas e pensamos: “que lugar irreal, ficaria por aqui uns tempos”. Mas, depois, o céu põe-se negro, o mar bravio, lembramos a origem vulcânica da ilha e pensamos melhor: “conseguiria aqui viver por mais de uma semana, tão isolado de tudo?”. Ou seja, desconfiamos que a vida nas fajãs nem sempre será tranquila e sossegada. Derrocadas de tempos a tempos trazem ainda mais isolamento às povoações das fajãs. Então, por que razão o Homem se estabeleceu nestas línguas de terra e porque insiste em fazê-lo? A sobrevivência do Homem desde o início do povoamento da ilha de São Jorge, no século XV, está na base desta bela história geográfica e etnográfica. Como a ilha de São Jorge é muito alta, a terra “lá em cima”, sujeita a ventos fortes, é pobre em termos agrícolas. Já nas fajãs, “cá em baixo”, abrigadas pelo vento, a terra é mais fértil e propícia a vários tipos de cultivos. É por isso que em quase todas as fajãs podemos ver pequenos terrenos agrícolas perfeitamente delimitados e até o aproveitamento da terra por meio de socalcos.

A maioria das fajãs é de ocupação sazonal. A tradição das “Mudas” vem de há muito. Na época do Inverno, quando o clima é mais desfavorável nas zonas altas, e no final do Verão, pelas vindimas, os jorgenses transpõe na totalidade da sua vida nas casas altas das freguesias para as casas das fajãs. Historicamente, as casas das fajãs foram construídas com a rocha das arribas e com a madeira de barcos encalhados que deram à costa ou de árvores cortadas dos matos que enchem as suas encostas. A roupa dos habitantes era feita dos materiais que se produziam na própria fajã, como a lã e o linho, trabalhados nos antigos teares de pé. E nas fajãs sempre se produziu alimentos, legumes e frutos, o peixe está mesmo adiante e até amêijoas se encontram. Para transportar bens mais pesados cá para baixo, quando não se queria sobrecarregar o burro ou não havia – ou ainda não há – acesso por veículo às fajãs, um sistema de cabos instalados ao longo da costa faz descer e subir os bens necessários.

Nos dias de hoje, há fajãs bem acessíveis e largas, onde não se sentirá tanto o esmagamento da natureza, e outras totalmente remotas onde já ninguém chega a não ser depois de muito caminhar. E, depois, outras há que, embora de acesso difícil e apenas pedestre, abriram-se ao mundo sem deixar de preservar a sua paisagem e tradições, acolhendo os turistas com agrado e vendo nesta nova economia um novo modelo para a sua sobrevivência.

“Deixei o meu relógio algures numa fajã.

Onde não contam horas nem minutos.

É o tempo de Deus.”

Emanuel Félix, in Habitação das Chuvas

Para saber mais sobre este povoamento único e típico das fajãs, eis o documentário “Fajãs do Tempo”, da Secretaria Regional do Turismo dos Açores.

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