São Jorge, as fajãs da costa norte

Chegada finalmente a São Jorge, atrasada pelo mau tempo do Pico e do Canal, tinha pressa de começar a passear. Segui diretamente para a costa norte, onde me esperavam algumas fajãs.

Antes de chegar à Fajã do Ouvidor já a temos aos nossos pés num fantástico miradouro. Até aí a estrada regional pouco tinha deixado ver para a costa, apenas umas vacas nos prados verdes. Mas, depois, de repente, aí temos o primeiro grande postal da costa de São Jorge. Um pedaço de terra suspenso sobre o mar, casinhas brancas por entre o verde dos terrenos cultivados, mar revolto deixando muita espuma branca no azul da água.

Numa estrada inclinada mas fácil de percorrer, rapidamente chegamos lá abaixo, à fajã. Esta fajã deve o seu nome ao facto de a maior parte das suas terras ter pertencido em tempos ao Ouvidor do Capitão do Donatário. Hoje é conhecida pelo seu restaurante “O Amílcar” e pelas suas poças. A origem vulcânica da ilha criou aqui formas geológicas diferentes que produzem piscinas naturais. Junto a esta costa o contraste da água do mar deixa de se fazer com o verde das terras para ser feito com o preto da rocha. A Poça Simão Dias é a maior e a mais incrível de todas estas poças.

Logo ao início do caminho em direcção ao farol avista-se de cima um corte na rocha com uma piscina de águas tranquilas em baixo. Seguindo no sentido contrário ao farol, muitos outros recantos hão-de surgir. Não tive, no entanto, a sorte de poder apreciar o lugar na sua máxima fama. O mar estava muito mexido, não consegui perceber se era por a maré não estar favorável, mas o facto é que por aqui não se viam as tais águas serenas para se nadar por entre o negro do basalto. Havia, sim, um lugar agreste, cheio de pedras soltas e rochas pontiagudas, em que o barulho das ondas num vazio de pessoas tornava o ambiente arrepiante. Ou seja, um lugar sem as famosas piscinas mas uma experiência natural ainda assim incrível.

No restaurante Amílcar come-se bom peixe e boa carne com vista para o mar. E daqui, o simpático Sr Amílcar pode indicar-nos um táxi que saia de Velas e nos vá buscar à Fajã dos Cubres para nos deixar na Serra do Topo. Confuso? Em São Jorge há algo imperdível de ser fazer: a caminhada Serra do Topo – Caldeira de Santo Cristo – Fajã dos Cubres.

Deixamos o carro na Fajã dos Cubres, descendo uma estrada de pendente e curvas assustadora. Mas aquele cenário… Sem palavras para descrever a beleza deste trecho da costa de São Jorge. Mas o melhor da coisa é que as próximas horas vão continuar a deixar-nos sem palavras, só com espaço dentro de nós para uma enxurrada de felicidade pela beleza dos lugares que percorremos. O táxi espera-nos, então, lá em baixo, na Fajã dos Cubres e daí subimos a estrada que antes havíamos descido para mais uns 15-20 minutos de caminho até à Serra do Topo. A 700 metros de altitude iniciam-se algumas caminhadas, mas esta será feita em direcção à costa norte.

Nevoeiro na Serra do Topo não é fenómeno estranho e impede de assistir a umas das maiores vistas que se podem ter da ilha. Mas assim que iniciei o trilho para a Caldeira de Santo Cristo o nevoeiro dissipou-se. E logo aos primeiros metros, quando se começa a descer pelo vale, senti logo que esta seria uma das caminhadas mais bonitas que jamais havia feito. Sem explicações, apenas o senti.

Começamos a descer a serra e um vale imenso e cheio de formas abre-se para o Atlântico. Feito de uma vegetação natural rica e variada, no momento em que percorri este trilho não era ainda a época das hortênsias em flor, pelo que tudo à volta era verde. À medida que vamos descendo, num caminho sempre fácil, ficamos totalmente imersos no vale e aí percebemos como são altas as montanhas que nos rodeiam. São lombas e ravinas, que alternam o seu revestimento entre mato e arvoredo e pastagens. São muitas as vacas que aqui se deixam estar. Daí que se encontre uma série de cancelas de madeira no caminho, sempre com a indicação para as deixarmos como as encontrarmos – para que as vacas não fujam de casa.

Depois de descermos a bom descer, começamos a ouvir o som da água a correr. São Jorge é rica em ribeiras. Sabia que no caminho iria encontrar uma cascata e a ansiedade por a descobrir junta-se à felicidade pela paisagem encontrada até aí.

Vê-se um pequeno caminho de água por entre pedras, mas não há desnível para comportar aqui uma cascata.

Espreita-se por entre a vegetação que se torna mais densa e vislumbra-se um fio de água a cair, mas também não deve ser por aqui.

Até que ao atravessar um bosque, passa-se uma ponte e percebemos que é por aí que a famosa cascata repousa. Uma placa com a indicação de um desvio não deixa que ela nos escape. É uma queda de água vigorosa que cai para uma pequena lagoa, cenário praticamente escondido pela vegetação cerrada.

Voltando ao trilho, a ansiedade agora passa a ser a de alcançar a vista que desde o início imaginamos e perseguimos, a da Fajã da Caldeira.

E ela aparece, enfim, no final do bosque: ravinas à direita, Fajã da Caldeira de Santo Cristo à esquerda. Esta vista é sublime, natureza em estado bruto, a felicidade maior.

Continuamos a descer mais um pouco e finalmente fincamos pé na Fajã da Caldeira. O recorte da paisagem envolvente torna-se mais perceptível e mais fantástico.

Vemos muita pedra por todo o lado, utilizada para fazer os muros que dividem os terrenos e, sobretudo, servindo como paredão natural que o mar foi empilhando.

A pequena Ermida do Senhor de Santo Cristo, ainda hoje lugar de culto para toda a população da ilha, passa a roubar as atenções, especialmente, pelos reflexos fabulosos que permite na também pequena lagoa à sua frente. Nas suas costas aparece, então, a grande lagoa pela qual é conhecida esta fajã, a caldeira. Esta lagoa é um habitat natural de avifauna e é o único lugar no arquipélago onde se produzem e comercializam amêijoas.

A Fajã da Caldeira de Santo Cristo foi criada pelo grande terramoto de São Jorge, ocorrido em 1757, também conhecido pelo “Mandado de Deus”. A violência e destruição foram enormes. Os deslizamentos de terra deram, então, origem a várias fajãs, entre as quais a da Caldeira. Durante o século XIX chegou a contar-se em mais de 100 os seus habitantes permanentes, tendo sido criada uma escola primária, um posto público de telefones e uma mercearia e instalada a rede eléctrica. O terramoto de 1980 (o mesmo que destruiu grande parte de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira) viria a destruir tudo isso e a levar a uma debandada geral da sua população. A fajã viu os seus dois acessos cortados pelas derrocadas de terra, ficou isolada durante três dias, a sua população foi evacuada e como resultado temos ainda hoje apenas 10 os seus residentes permanentes. Mas esse número multiplica-se amiúde durante o ano. A fajã tem um boa dinâmica em termos turísticos. Várias casas têm sido reconstruídas, dispõe de um Centro de Interpretação (apenas aberto aos fins de semana fora da temporada que vai de Maio a Setembro), é lugar do mítico Café Borges e é um autêntico surf camp.

Pelo menos fora da época alta, é um paraíso de tranquilidade onde dificilmente a conjugação dos elementos naturais pode ser mais intensa e perfeita. Infelizmente não dormi na fajã e, logo, não acordei nela, nem dei um mergulho no mar. Porque há que ter sempre algo para se sonhar e fazer de novo. Mas, isolada no meu cantinho, sentei-me no seu extenso paredão a contemplar toda a excelência e perfeição que a força destruidora da natureza nos pode oferecer.

Neste momento já tinha percebido que as 2h e 30m indicadas para este trilho eram impossíveis, mesmo que se passe a correr pela Fajã da Caldeira, o que, pelos motivos acima expostos, é também impossível. Atenção, pois. A totalidade do trilho de cerca de 10 kms não se faz em menos de 4h.

Deixo a Caldeira e mais pedra aparece no caminho. São os poios, o resultado dos muitos deslizamentos. Deixo escapar a Furna do Poio, atravesso a Fajã dos Tijolos e a Fajã do Belo. Esta última também chegou a ter mais de 100 habitantes e hoje vêem-se algumas casas reconstruídas e muitos trabalhos ainda em andamento.

Não se consegue deixar de olhar para trás sem dizer um último adeus à Fajã da Caldeira.

As ravinas e as veredas parecem tornar-se mais temerosas e algumas moto4 passam pelo caminho estreito – para além do barco e a pé, só de moto se chega à Fajã da Caldeira desde a Fajã dos Cubres, o destino final desta caminhada.

E eis que se começa, então, a avistar a Fajã dos Cubres, também com a sua lagoa de água salobra. Cubres é o nome de uma planta de flores amarelas que inundam as encostas desta região. Tal como a da Caldeira, a disposição geográfica desta fajã é irreal. Um lugar paisagisticamente privilegiado, com as típicas vaquinhas e igrejinha. Pouco mais é necessário para compor o postal perfeito.

Para despedida, subo uma vez mais a estrada que nos ligará ao mundo – felizmente também ele ainda feito de muita natureza -, e deixo-me estar mais um pouco a observar a costa norte de São Jorge, com a certeza de que este está entre os lugares mais extraordinários do nosso planeta.

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