São Miguel, lagoas

A imagem mais icónica de São Miguel é a da Lagoa das Sete Cidades. Sobre ela escreveu Raul Brandão, na sua obra Ilhas Desconhecidas (a que volto sempre), “um pouco de azul, um pouco de verde, ternura e idílio”. Tão arrasadora é esta paisagem natural que levou o grande escritor a escrever que “Pela primeira vez na minha vida não sei descrever o que vejo e o que sinto. […] Existe ou sonhei esta água parada, esta grande cova selvática empolada de roxo, com aquela serenidade a ferros lá no fundo? Esta beleza estranha que não nos larga e nos contempla ao mesmo passo que a contemplamos?”.

A Lagoa das Sete Cidades é o resultado de uma enorme erupção de um vulcão em 1445, tendo-se formado na cratera desse vulcão. Esta caldeira de abatimento comporta lá em baixo, protegida por umas paredes altas e carregadas de vegetação, uma lagoa que parece na verdade duas: a Lagoa Verde e a Lagoa Azul, separaras por uma ponte. Diz a lenda, porque nenhuma paisagem majestática a pode dispensar, que uma princesa de olhos azuis aqui conheceu um pastor de olhos verdes, tendo ambos caído de amores um pelo outro. Mas o rei proibiu este amor da sua filha e na despedida os dois namorados tanto choraram que das lágrimas dos olhos azuis da princesa foi formada a Lagoa Azul e das lágrimas dos olhos verdes do pastor foi formada a Lagoa Verde, unidas para sempre na Lagoa das Sete Cidades. Todavia, a explicação para as duas cores da lagoa, azul e verde, é um pouco mais prosaica, devendo-se à sua profundidade e concentração de algas na água.

Como curiosidade, refira-se que a erupção de 1445 deu-se no ano seguinte ao achamento oficial da ilha de São Miguel. Gaspar Frutuoso, historiador nascido na ilha em 1522, conta-nos na sua extensa obra Saudades da Terra que os descobridores de São Miguel, no seu reconhecimento, apontaram que em cada extremo da ilha havia um pico muito alto. Mas quando esses e outros homens voltaram nos anos seguintes, a mando do Infante D. Henrique, para povoar e atestar da fertilidade da terra, já só lhe viram um pico a oriente. O que aconteceu foi que “nesse meio tempo, enquanto eles foram ao reino e tornaram, aconteceu que se alevantou o fogo, a primeira vez sabida nesta terra, e ardeu aquele alto pico para a banda do noroeste nesta ilha, junto da ponta dos Mosteiros, onde agora se chamam as Sete Cidades às cavidades dele”.

A Lagoa das Sete Cidades é para ser vista de todos os pontos, seja cá em baixo bem junto às suas tranquilas águas desde a Baía do Silêncio;

Ou desde o miradouro mais famoso da ilha, o da Vista do Rei;

Ou do miradouro do Cerrado das Freiras, o mais próximo;

Ou da Cumeeira, o seu ponto mais alto;

Ou desde o miradouro da Boca do Inferno, o mais grandioso. Para se chegar a este último caminhamos por uns 15 minutos com direito a passagem pela idílica Lagoa do Canário com as suas carpas e um arvoredo frondoso a compor o cenário.

Para trás havia ficado a opção de se caminhar até à Lagoa das Empadadas (projecto futuro). E do alto do miradouro da Boca do Inferno, ainda temos direito à vista das Sete Cidades acompanhada da Lagoa de Santiago e da Lagoa Rasa e mais umas lagoas escondidas na Serra Devassa. Enfim, uma infinitude de lagoas numa paisagem infinitamente sublime.

Pese embora toda a beleza e elegância arrebatadoras das Sete Cidades, diz-se que a lagoa preferida dos micaelenses é a Lagoa do Fogo, praticamente no centro da ilha. Percorrer a estrada de montanha que nos leva até ao topo da lagoa é um dos momentos épicos a serem vividos na ilha de São Miguel. Este pedaço de ilha que costuma frequentemente ser tomado pelas nuvens estava totalmente limpo à minha visita, sorte tremenda, pois. Do miradouro da Barrosa a vista alcança os dois lados do oceano e toda a região noroeste da ilha. E do seu alto, claro, assiste-se ao grandioso cenário da forma recortada da Lagoa do Fogo, um vulcão no alto da serra com uma lagoa dentro, a segunda maior da ilha e a mais alta, a 575 metros de altitude. E a mais jovem, resultado de uma erupção vulcânica que se presume ter acontecido há 15000 anos. As suas paredes foram sofrendo alterações ao longo dos séculos, objecto de vários colapsos, e chegam a atingir os 300 metros. À semelhança da Lagoa das Sete Cidades, o coberto vegetal é intenso e frondoso. Para a experiência da vivência da Lagoa ser mais profunda, percursos pedestres levam-nos até junto da sua água azul, na base da caldeira.

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