Uns castelos pelo Tejo

O rio Tejo em território de Portugal é pontuado pela presença de uns castelos aqui e ali. Um bem óbvio para quem mora na capital, como é o caso do Castelo de São Jorge, outro uma visita de sonho para quase todos nós, como é o caso do Castelo de Almourol plantado numa ilhota. Pelo meio temos ainda o Castelo de Santarém e as suas vistas maravilhosas para a lezíria.

Porém, desta vez passearemos pelos outros castelos sobranceiros ao Tejo, os de Abrantes, de Belver e da Amieira, deixando o de Vila Velha de Ródão para uma próxima viagem, fiéis ao princípio de deixar sempre algo para ver como desculpa para voltar.

A situação geográfica do rio Tejo e a sua acessibilidade e navegabilidade não foram, claro, alheios à decisão de se implantar estas estruturas defensivas em cada um destes lugares. No entanto, cada uma destas estruturas da Linha Defensiva do Tejo acabou por desempenhar diferentes papéis na história do nosso país.

Comecemos pelo Castelo de Abrantes. Depois de tomada Abrantes aos mouros, D. Afonso Henriques mandou construir nesse mesmo século XII o castelo para defesa da linha do Tejo. Estávamos então no contexto da Reconquista Cristã e o castelo que no século XVIII acabou por tomar a forma de fortaleza foi, antes disso, palco de diversas batalhas entre mouros e cristãos. As muralhas exteriores não são muito imponentes e este século trouxe-lhe um quê de infantilidade com a instalação de um parque de jogos à sua entrada.

Mas um passeio pelo seu interior permite-nos ainda perceber a sua configuração e papel histórico. Aqui temos a Igreja de Santa Maria. A primitiva igreja era contemporânea da construção do castelo, mas no século XV acabou por ser remodelada e passar a panteão dos Almeida, cujos membros da família eram condes de Abrantes. O interior do castelo possui ainda o Palácio dos Governadores, muito alterado ao longo dos séculos, e a Torre de Menagem. Esta Torre de origem medieval, do século XII, também foi objecto de reconstruções várias ao longo dos tempos, mas no seu caso por força do terramoto de 1531 que a deixou em ruína até ao século XIX, século este que viu ainda passar pela vila e castelo as tropas napoleónicas.

Não precisávamos de subir à Torre para vistas enormes, uma vez que da muralha do castelo já as tínhamos, mas não resistimos a mais um ponto de vista. E que vista.

Uns 30 kms Tejo adentro, ainda na sua margem direita, a norte, surge no caminho um dos mais fantásticos castelos portugueses. Depois da apresentação quase burocrática do Castelo de Abrantes, este início de boas-vindas ao Castelo de Belver faz com que as expectativas se elevem. Mas não há que temer pela felicidade numa visita a este Belver. Esta é garantida.

Instalado no topo mais elevado de um monte granítico junto ao rio, o Castelo de Belver tem o cognome, à semelhança do de Almourol, de “sentinela do Tejo”. Vivia-se a época da Reconquista Cristã quando por volta de 1194 D. Sancho I doou à Ordem dos Hospitalários (hoje Ordem de Malta) um território que incluía, entre outras, as terras que logo passariam a ser a povoação e castelo de Belver – o Tejo era então um espaço de fronteira e havia que fazer face a ambas as necessidades de povoamento e militares. Até aqui a Ordem dos Hospitalários tinha uma função assistencial e com a construção desta estrutura defensiva assumirá a sua vocação militar. O castelo terá ficado construído em 1212 e figuras históricas passaram por lá. O Condestável D. Nuno Álvares Pereira mandou reconstruir as primitivas defesas, a princesa Santa Joana fez daqui sua residência após a peste de Aveiro em 1476 e fala-se, ainda, de um eventual exílio de Camões em Belver. O castelo sofreu com os terramotos de 1531 e de 1755 que deixaram a sua Torre de Menagem em ruína, mas o século XX veio dar um novo rumo no seu estado de conservação com os trabalhos de restauro por parte das autoridades do Estado.

Feito o contexto histórico, adentramos neste reduto de muralhas medievais e descobrimos a pitoresca ermida de São Brás aninhada junto à Torre de Menagem. O espaço interior do castelo é pequeno e subimos ao alto da Torre. As vistas para lá das muralhas não podiam ser mais sublimes. As águas azuis do Tejo serpenteiam rasgando a terra coberta do verde da relva rasteira e das oliveiras. Uma tranquilidade imensa é o que se sente do alto da torre do castelo de Belver.

Um pouco mais ainda adentro pelo Tejo, mas mais longe por estrada, há de surgir o Castelo da Amieira, a meio caminho do Gavião e Nisa. Não está mesmo junto ao Tejo nem este se avista do castelo, mas sente-se. Amieira do Tejo era uma das doze vilas da Ordem de Malta. Neste território, que hoje faz a transição entre a Beira e o Alentejo, mandou construir em 1359 D. Álvaro Gonçalves Pereira (prior da ordem de Malta e pai do Condestável D. Nuno Álvares Pereira) um castelo integrado na linha defensiva da margem sul do Tejo. Três anos antes a sede da Ordem tinha sido transferida para a Flor da Rosa, ali perto, e tendo o Tejo boas condições de navegabilidade e, no caso específico da Amieira, um bom porto fluvial, foi então escolhido o lugar para se implantar novo castelo. Como curiosidade, o castelo não está num ponto cimeiro, pelo contrário, como que se desce na aldeia para se ir ter com o castelo, avistando-se a Capela do Calvário mais acima.

O Castelo da Amieira foi um dos primeiros exemplares de castelo gótico em Portugal, tendo-lhe sido construída uma barbacã inovadora com características modernas. Com planta quadrangular e quatro torres em cada um dos cantos ligadas por muralhas, a maior dessas torres teria a função de torre de menagem mas acabou sobretudo por ser a residência do fundador do castelo, D. Álvaro Gonçalves Pereira. Uma volta pelo exterior do castelo saindo pela Porta da Traição e uma vista do alto das suas muralhas deixa-nos face a face com mais um pedaço de tranquilidade, feita de contornos suaves da serra e mais uma série de oliveiras.

Entre muitas outras, duas curiosidades deste castelo que foi residência de alcaides, prisão e cemitério. Primeiro, a sua cisterna possui ainda e desde sempre água, facto que não é assim tão comum. Segundo, a Capela de São João Baptista, construção do século XVI, apresenta pinturas no seu tecto efectuadas com a técnica decorativa do esgrafito. A temática destas pinturas é profana, com a justaposição de motivos grotescos e vegetalistas, reflectindo talvez a decadência das funções defensivas do castelo e a especial devoção a este santo por parte dos hospitalários. Também nas torres podemos ver vestígios de pinturas, o que é invulgar nas fortificações medievais portuguesas.

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